Pequeno balanço do Festival de Curitiba

31 mar

Michel Fernandes – Aplauso Brasil –  (michel@aplausobrasil.com)

REBU, de Jô Bilac, com o Teatro Independente

É preciso um certo distanciamento para que eu compreenda em mim os efeitos causados, a partir do que assisti, pelo 19º Festival de Curitiba, mas uma coisa me ficou clara: a qualidade dos espetáculos da Mostra Contemporânea, a Oficial, estava bem mais interessante que os que escolhi assistir na edição passada.

O que empacou a melhor fruição de espetáculos como Till – A Saga de um Heroi Torto, com o excelente Grupo Galpão, de Belo Horizonte (MG), foi a opção por deslocá-lo do ar-livre, para onde o espetáculo foi criado, à bela, mas inadequada para espetáculos teatrais, Ópera de Arame.

Entre os destaques da Mostra Oficial estão Cinema, Travesties, Ghetto, Rebú e Simplesmente Eu, Clarice Lispector.

Caetano Vilela, diretor de TRAVESTIES

O novo trabalho assinado pela Sutil Companhia de Teatro, Cinema, dirigido por Felipe Hirsch, conquistou pela simplicidade eficiente no uso do corpo e expressões para envolver o espectador.

Caetano Vilela arquitetou muito bem o trabalho que inaugura a Cia. Ópera Seca pós-Gerald Thomas. Travesties, do britânico Tom Stoppard. Como maestro primoroso articulou o texto inteligente, denso e divertido encontrando brechas para imprimir sua marca estilística. O elenco formado por Germano Melo, Rodrigo Lopez, Patrícia Dinely, Manoel Candeias, Roney Fachinni, Fabiana Gugli, Roberto Borges e Anette Naimann, alcançou invejável equilíbrio de talento.

Elias Andreato ao resgatar a discussão de um judeu polonês em Ghetto, momentos antes de sua morte na destruição do gueto de Varsóvia, com Deus, mostrando fé inquebrantável, embora em nada passiva, feito Jó, conseguiu despertar, por meio da comovente e segura interpretação de Fábio Herford, reflexões sobre o convívio com o diferente de nós.

Para interpretar Clarice Lispector, a atriz Beth Goulart introjetou a serenidade e a inquietude daquela que deseja esmiuçar todos os recantos da alma, alcançando vigorosa expressividade corporal e energia que nos emociona e convida ao mergulho em nós.

Cena de CACHORRO!Teatro Independente: Do Tango ao Flamenco

Impossível deixar de visualizar o caminho escolhido pela companhia carioca, Teatro Independente: sua estrada ascende a re-interpretações de estéticas caras a artistas do século 19, como João Caetano, mas com o frescor daquele que pesquisa de forma ativa, criticando o que apreendeu. O melodrama folhetinesco apresentado em Rebú, apesar de não ser representado de maneira satírica, desejando causar o riso, causa gargalhadas ao colocar em cena um trabalho que utiliza largamente estilização corporal e vocal, além da referência nítida do sapateado flamenco.

Se Rebú é flamenco, Cachorro!, primeiro trabalho da trupe – apresentado no Fringe, Mostra Paralela –, é o tango, com referências claras ao universo do dramaturgo Nelson Rodrigues e suas tramas folhetinescas.

Ambas as peças são de autoria de Jô Bilac que enfrenta, com êxito, a difícil tarefa de recriar universos conhecidos e consagrados, caso de Nelson Rodrigues, sem cair no pastiche ou na mera reprodução de fórmulas que acabam por secar solos criativos.

Guilherme Siman - Foto: Emi Hoshi / clix.fot.br

Medo do Fringe

Longe de mim fazer a linha da pudicícia, mas, sinceramente, o que esperar de uma peça cujo título é A Putaria? Ou Por que os Homens Transam e as Mulheres Fazem Amor? Essas peças incluíram minha lista do “Fuja!”. Talvez elas até me surpreendessem, mas tenho um pouco de medo do Fringe. É um aglomerado de mais de 300 peças em que se salvam 10% apenas.

Dentre as que vi e merecem destaque são: A Queda, de Guilherme Siman, Não Sobre o Amor, de Felipe Hirsch, De Como Virei Bruta Flor, de Cláudia Schapira, Manson Superstar, de Paulo Biscaya, e Cachorro!, de Jô Bilac.

5 Respostas to “Pequeno balanço do Festival de Curitiba”

  1. Theo Alves 31 de março de 2010 às 7:11 PM #

    Ao ler esta matéria, senti uma felicidade absurda por fazer parte da equipe do Aplauso Brasil. Texto conciso, informativo e extremamente elegante. Sem desmerecer ou muito menos ofender ninguém. Obrigado por compartilhar sua bagagem comigo… Estamos juntos!

    • michelfernandes 31 de março de 2010 às 8:26 PM #

      Theo, vc é um excelente parceiro! As coberturas de festivais depois que começamos a dividir tudo cresceu absurdamente. sou grato a vc por cuidar de mim e do meu site q vc sabe o qto amo! E aviso a TODOS: SEM O THEO NÃO FARÍAMOS UM TRABALHO TÃO BACANA! O THEO É TALENTOSO, PACIENTE E ÁGIL, O QUE É CONDIÇÃO SINE QUA NON PRA FESTIVAIS, sem contar wue rimos horrores!!!! “mama me explica, mama me ensina…”

  2. Roger Andrelins 31 de março de 2010 às 10:37 PM #

    Vocês não falam sobre mim? Adorei estar mais um ano aprendendo com a equipe da Aplauso. Cada ano cresço mais com a contribuição generosa da equipe. Fico feliz por ter essa equipe como grandes amigos!

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  1. Tweets that mention Pequeno balanço do Festival de Curitiba | Aplauso Brasil -- Topsy.com - 31 de março de 2010

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  2. Emi PhotoArt » Blog Archive » Foi por uma boa causa! - 7 de abril de 2010

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