Clarice, Ainda uma Pergunta

26 abr

Luis Fabiano Teixeira, especial para Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Homenagem de Luis Fabiano Teixeira a Clarice Lispector

Homenagem de Luis Fabiano Teixeira a Clarice Lispector

Ao longo da vida, a escritora Clarice Lispector colecionou diversos adjetivos, a maioria enfatizando um lado mítico seu que, aparentemente, a incomodava: “Sou uma mulher simples. Não tenho sofisticação. Parece que me mitificaram” – costumava reivindicar, mas sem revolta. Depois da sua morte, em dezembro de 1977, no auge da popularidade, muitos se lançaram, às escuras, na tentativa de desvendar os seus mistérios e iluminar episódios da sua vida particular, mas poucos foram tão bem-sucedidos quanto o norte-americano Benjamin Moser, o autor da gigante Clarice,, biografia publicada nos Estados Unidos, no ano passado, e que chegou ao Brasil cheia de expectativa.

Desde o seu lançamento, Moser tem sido bastante incensado pela imprensa brasileira: jovem (32 anos), estrangeiro, “apaixonado” por Clarice e falando um bom português, logo chamou atenção. E todos estavam certos em reconhecer o seu talento. Ele investiu cinco anos de sua vida no projeto e correu mundo em busca de informações que refizessem a trajetória de Clarice e ainda revelassem alguns fatos, até então, obscuros. Com uma rica personagem nas mãos, um texto envolvente e uma ótima tradução de José Geraldo Couto, chegar à lista dos mais vendidos por aqui não foi tão difícil. Existe até uma torcida animada para consagrá-lo “o livro do ano”, mas é aconselhável também não exagerar.

O primeiro contato do leitor com a obra, depois da belíssima capa, é claro, é com silenciosas páginas negras que, além de convidá-lo para uma imersão no universo “oculto” de Clarice, também sugerem que o enigma dela não tem fim. Recado inicial dado, parte-se para uma introdução bem didática, reforçando duas das principais características que a tornaram uma espécie de “divindade”: a sua imagem fascinante e um duelo provocativo com a Esfinge, numa viagem ao Egito, em 1946. “Vi a Esfinge. Não a decifrei. Mas ela também não me decifrou” – disse orgulhosa. Até aí tudo muito previsível, em se tratando de Clarice Lispector, mas o livro só começa a ganhar fôlego mesmo, um pouco depois, quando passa a investigar a sua origem judaica, no Leste Europeu.

Clarice nasceu numa pequena aldeia, na Ucrânia, em dezembro de 1920, em plena fuga dos pais para a América, após forte perseguição aos judeus. Recebeu um nome bastante sugestivo, Chaya, que em hebraico significa “vida”. Ela só seria rebatizada como a conhecemos, dois anos depois, quando a família chega ao Brasil. Antes, porém, há o relato comovente e aterrador do estupro da sua mãe, Mania Lispector, por um bando de soldados russos. Esse fato marcaria definitivamente a vida das duas. Mania contraiu sífilis e dar a luz, segundo uma superstição, a curaria da doença, mas isso não se realizou e ela faleceu quando Clarice tinha apenas nove anos. A escritora sempre se lamentou, em tom de culpa, por não ter podido salvá-la. Nessa época, todos já moravam modestamente no Recife, cidade onde Clarice guardaria lembranças ternas e de onde herdaria o leve sotaque pernambucano. No conto Os desastres de Sofia, por exemplo, por trás da personagem que “não é flor que se cheire”, ela afirma: “Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo não quebrado de uma begônia”, numa referência velada a esse período tão doloroso. Mas a sua infância não foi só sofrimento e pobreza, foi também uma das mais férteis em imaginação e travessuras. E essas passagens saborosas são ótimas de acompanhar porque a “humanizam”.

A narrativa traz ainda um importante quadro histórico do Brasil, com variados depoimentos e citações. Nesse aspecto, poderia ser um pouco mais enxuta, porque muitos deles se repetem, até com um certo exagero, como o do poeta Lêdo Ivo, que aparece três vezes. Também não faltam assuntos mais delicados como o affair da escritora com o poeta e cronista Paulo Mendes Campos, que, embora ela nunca escondesse, sempre foi tratado com alguma reserva pelos seus biógrafos anteriores. Ou o patético assédio do ex-presidente Jânio Quadros em que foi vítima: “Sua excelência convidou Clarice a um quarto privado, onde se pôs a apalpá-la com tanto ardor que, na luta para afastá-lo, ela rasgou o vestido”. Talvez, nos assuntos mais arenosos, como o mais difícil deles, o câncer que a levou à morte, a paixão de Moser por Clarice o impediu de ir mais além, mas é louvável o seu esforço constante em mostrá-la cada vez menos inatingível.

Moser também se dedica com entusiasmo à obra de Clarice, buscando não só revelar curiosidades, mas também investigando os autores que ela leu, a impressão que eles lhe causaram e até a sombra esmagadora dela na obra do escritor Caio Fernando Abreu. “Fui ler, aos treze anos, Hermann Hesse e tomei um choque”, ela declarou na famosa entrevista à TV Cultura, meses antes de morrer, referindo-se ao livro O Lobo da Estepe (1927), que enfoca a desagregação do homem diante do seu sofrimento mais íntimo. É possível reconhecer a influência desse livro em, pelo menos, dois de seus romances: Perto do Coração Selvagem, sua estreia na literatura, e A Paixão segundo G.H., um dos mais emblemáticos da sua obra. Fica, no entanto, a eterna dúvida: Clarice, algum dia, teria realmente “tirado a máscara”, para uma nova encarnação do seu eu, como sugere o personagem de Hesse, ou a teria mantido presa, inflexível, até o fim, dissimulando que era apenas “uma mulher simples”? A verdade é que essa resposta ninguém nunca saberá, ou apenas ficaremos tateando no campo ambíguo das possibilidades, porque, quando se trata de Clarice Lispector, a melhor definição ainda é a da própria escritora: “Eu sou uma pergunta”. E continuará sendo.

3 Respostas to “Clarice, Ainda uma Pergunta”

  1. Richard Mathenhauer 28 de abril de 2010 às 6:10 PM #

    Gostei de seu texto, Luis, e embora conhecesse algumas passagens da vida de Lispector, surpreendi-me com outras (como sobre o estupro e o assédio de Jânio – eh, Jânio, hein?).

    Confesso que pouco compreendo de Clarice. Se ela disse que não decifrou a Esfinge, e que neste esta, a ela, digo que nunca decifrei Clarice. E isso, confesso, frustra-me imensamente. Virginia Woolf disse, repetindo um poeta ingles, que certos autores tem de ter mente androgino; eu digo que certos leitores tb tem de ter para poder compreender o lado masculino e o feminino dos textos. Pois acredito haver “gêneros” e textos.

    Vi uma entrevista de Lispector (reprise na Cultura) e me apaixonei por ela. Foi aí que meu desejo cresceu. Mas, como disse, sou frustrado. Aquela mulher de uma tristeza que corta a gente como folha de sulfite é uma bruxa… mas, que bruxa!

    Abraços, Luis.

    • michelfernandes 29 de abril de 2010 às 9:39 AM #

      oi richard, o estupro ocorreu com a mãe de clarice, quando ela ainda era bebê, na Rússia, por soldados russos.

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  1. Conto de Clarice Lispector ganha a cena | Aplauso Brasil - 18 de maio de 2010

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