Transexuais, “Teatro Expandido” e “Teatros do Real” em Hipóteses Para o Amor e a Verdade n’ Os Satyros

1 maio

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

Phedra D' Córdoba e Esther Antunes em HIPÓTESES PARA O AMOR E A VERDADE

Estreia logo mais um instigante trabalho da Cia. de Teatro Os Satyros com propostas que prometem abalar a forma tradicional em que o teatro se apresenta. Hipóteses Para o Amor e a Verdade, texto de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, que também assina a direção, busca investigar a linguagem que batizaram de “Teatro Expandido”.

No elenco atores, não atores e três transexuais: uma delas a diva da companhia, a deliciosa e dona de talento ímpar, Phedra D’ Córdoba. A trama e personagens surgiram nas entrevistas realizadas com a população que circunda a Praça Roosevelt. E posso garantir que a fauna de tipos humanos é bastante diversificada.

Antes de entrar no enredo da peça, peço licença ao senhor leitor para observar um dos motivos que mais me instiga a assistir a peça: no artigo “Teatros do Real”, um dos brilhantes textos de Teatralidades Contemporâneas, escrito por Sílvia Fernandes – uma de nossas mais competentes teóricas de teatro –, é apontado como característica da linguagem teatral contemporânea essa mescla de ficção e verdade, apoiada numa representação que rejeita o naturalismo, bem como o engajamento político didático, o foco da ação no indivíduo e como ele dialoga com seu meio social. E essa parece ser a proposta de Hipóteses Para o Amor e a Verdade que tem como mote a vida de pessoas anônimas do centro de São Paulo, suas crenças e seus afetos diante da Nova Humanidade.

Luiza Gottschalk

O espetáculo também discute os caminhos do teatro no novo milênio, onde se apresentam conceitos e procedimentos inéditos como realidade expandida, pós-homem, engenharia genética e virtualidade. Estas situações teatrais são apresentadas de forma aleatória, com várias intervenções tecnológicas tanto da parte dos atores quanto dos espectadores, propondo novas formas de relação teatral. Os espectadores são convidados a participar de um espetáculo de teatro expandido e deixar, por exemplo, seus telefones celulares ligados durante toda a apresentação, pois várias das situações propostas pelo elenco serão realizadas através de recursos do celular.

Entre as diversas situações teatrais, surgem personagens como o nerd solitário que só se realiza amorosa e sexualmente através da internet; o Adão do século 21; a prostituta Madalena que trabalha na noite; a velha catatônica e sua enfermeira; o gerente de fábrica amante da luxúria; a travesti que é guia turística das micro-humanidades do centro e o Homem-Bomba, surgido em uma transformação ocorrida num presídio feminino.
No meio deste turbilhão em que o real e o virtual se fundem, o biológico e o tecnológico se indistinguem, a identidade e a alteridade se diluem, a Humanidade acaba se redefinindo. Os velhos conceitos do que é humano desabaram.

Realidade Expandida

Nossa vida hoje mal consegue reconhecer o real e o virtual, torna-se interativa em tempo real e está assumindo a 3D. A ideia do Humano já não pode ser mais restrita ao conceito clássico. O ser humano assumiu uma miríade de personas, reais e virtuais, analógicas ou digitais, fisicamente naturais ou fabricadas artificialmente que acabam muitas vezes por se desprender do corpo que as criou.

Como se torna a experiência humana neste Admirável Mundo Tecnológico? Como se transforma a solidão com a utilização de um celular, MSN, Internet, Orkut, Facebook, Twitter?

Podemos considerar que a experiência da solidão se modificou? E quanto ao amor? É possível pensar o Amor com as categorias clássicas do Romantismo burguês?

Os atores vão, ao vivo, realizar performances com câmeras digitais, mensagens de texto, sites e salas de bate papo na internet, bluetooth, entre outros recursos. Tudo isto em tempo real.

Os espectadores serão convidados a participar da experiência, deixando seus celulares ligados, para que o contato virtual seja possível durante toda a apresentação. Caso os espectadores recebam ligações pessoais, eles poderão atendê-las durante o espetáculo, sem nenhum constrangimento. O espetáculo vai incluir todas as manifestações da máquina-alterego chamada celular. Aos espectadores com equipamentos de celular mais avançados, será possível também navegar ao vivo, interagir com os atores e compartilhar dos sites e programas que estarão sendo acessados pelos atores.

O Elenco
O elenco trouxe uma importante contribuição para o processo de elaboração do roteiro do espetáculo, tanto no sentido de relatar sensações, observações e vivências desta Nova Humanidade, quanto ao colocar seus próprios corpos ao dispor da cena. As experiências pessoais dos atores, sua percepção do mundo e de seus corpos como signos teatrais neste ambiente tecnológico em que vivemos, foram fundamentais para o processo.

Composto por atores com e sem treinamento formal, integram o elenco: Luiza Gottschalk, Marcelo Szykman, Tânia Granussi, Paulinho Faria, Tiago Leal, e quatro transexuais propositalmente incorporados nesta aventura cênica.

Phedra De Córdoba é uma transexual cubana que entrou para Os Satyros em 2003, época da inserção do nosso grupo na realidade da Praça Roosevelt. Seu corpo em cena será a manifestação viva, documento biológico da integração do grupo à Praça.

Esther Antunes é atriz transexual. Viveu no meio teatral durante 30 anos, antes de seu processo de reconstrução de identidade de gênero, como diretor e ator. Em Hipóteses Para o Amor e a Verdade, Esther inicia agora uma nova carreira, com sua nova identidade sexual. Trata-se, portanto, de um corpo feminino de uma atriz iniciante, apesar de seu corpo também carregar a memória do corpo masculino que já existiu e viveu durante 30 anos no meio teatral.

Nos anos 1980, houve um grupo de punk rock feminino, cult e único na cena musical off paulistana chamado “As Mercenárias”. Sua baterista, Lu Moreira, acabou nos anos 1990 se envolvendo com o universo das drogas e se afastando da cena musical. Sua redefinição de identidade sexual ocorreu há seis anos, assumindo desde então o nome de Leo Moreira. Apesar de não ter treinamento formal como ator, a memória biográfica de Leo Moreira foi fundamental para o roteiro e a criação do espetáculo.

Também destacamos a trajetória de Luiza Gottschalk, que foi apresentadora de programas de televisão sobre games e outros jogos tecnológicos. Ao participar do espetáculo, Luiza retoma sua experiência com o jogo no ambiente teatral.

Em todos os casos dos transexuais assumidos (2 femininos e 1 masculino), os corpos destes atores nos fazem questionar conceitos considerados perenes: a identidade de gênero, algo que deveria ser imutável, atualmente vem sendo (e pode ser) revisto. Hoje podemos construir, através de vários recursos tecnológicos, a nossa identidade corpórea de acordo com aquilo que entendemos ser verdadeiro em nossa identidade emocional. A transexualidade tecnológica é uma das manifestações da Nova Humanidade.

Em cena, estes corpos redefinidos tecnologicamente, virtualmente, experiencialmente; vão portar novos desafios para o espectador e seus conceitos de verdade, real ou cênica.

Teatro Expandido
Uma das principais ideias no processo de elaboração do espetáculo é o Teatro Expandido. Com a evolução tecnológica, os recursos disponíveis para as experiências humanas tornam-se, a cada dia, mais provocadores e transformadores.

Temas como pós-homem e realidade expandida são hoje fundamentais para a compreensão dos caminhos que vamos traçar. O teatro também pode e deve se conectar a estas novas possibilidades. Assim, pretendemos, para o espetáculo, explorar algumas das dimensões tecnológicas disponíveis hoje.

Ainda que estejamos na pré-história dos desdobramentos tecnológicos, já podemos vislumbrar os caminhos que poderão ser percorridos. A Humanidade está sendo redefinida pelo desenvolvimento do mundo virtual, e o Teatro não pode ficar alheio a isto. Quais as implicações destas novas esferas para a experiência teatral?

Mais do que nunca a Nova Humanidade precisa do teatro como experiência corpórea estética única. O Teatro se manifesta com força neste mundo em que o contato físico se torna previsível e descartado. Incorporar a realidade expandida ao Teatro só revigora as potencialidades virtuais do Teatro, ainda inexploradas. O ator expandido será o tema do futuro não muito distante”, diz o material de divulgação que não deve ser desprezado.

Hipóteses para o Amor e a Verdade
Texto:
Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez
Direção: Rodolfo García Vázquez
Assistente de direção: Fábio Penna
Cenário e Figurino: Marcelo Maffei
Iluminação: Rodolfo García Vázquez e Fábio Cabral
Elenco: Esther Antunes, Leo Moreira, Luiza Gottschalk, Marcelo Szykman, Paulinho Faria, Phedra De Córdoba, Tânia Granussi e Tiago Leal
Realização: Os Satyros
Assessoria de Imprensa: Robson Catalunha
Direção de produção: Erika Barbosa
Quando: Sexta, sábado e domingo, 21h30
Onde: Espaço dos Satyros Um – Praça Franklin Roosevelt, 214
Quanto: Ingresso Promocional R$ 10 (preço único)
Lotação: 70 lugares
Duração: 90 min.
Classificação: 18 anos
Estréia: 1 de maio
Temporada: até 20 de junho

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