Side Man evidencia as agruras da profissão dos artistas

30 jun

Kiko Rieser, especial para o Aplauso Brasil

"Side Man", em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso

O processo de feitura de uma obra de arte é premido por diversas circunstâncias que não concernem somente ao criador, mas que dizem respeito ao mundo mercantil em que a obra se inserirá. Profissão difícil e preterida pelos grandes poderes políticos e econômicos, a arte sempre passa por enormes dificuldades para conseguir se sustentar e se divulgar.

Em formas de manifestação artística mais artesanais, como o teatro, é muito comum um espetáculo chegar a ser inviabilizado por falta de dinheiro. Diversos artistas acabam precisando de uma profissão paralela para se manter e muitos dos que não a têm passam por inúmeros momentos de incerteza quanto a um futuro próximo, sempre sujeitos às instabilidades de um mercado exíguo e, muitas vezes, paternalista.

Quem vê uma obra de arte pronta pode não imaginar tudo que a envolve, não conseguindo, deste modo, vê-la em sua completude. Torna-se mister, portanto, evidenciar ao público leigo o que há por trás do mundo muitas vezes idealizado que cerca a arte e os artistas, tarefa essa que cumpre o espetáculo Side Man.

O ator Otávio Martins

O texto de Warren Leight trata de tempo e lugar muito específicos: Nova York, meados do século 20. As rádios vêm ganhando cada vez mais importância e o rock está crescendo e se tornando um ritmo praticamente hegemônico. Neste cenário, os grandes músicos de jazz passam a ter cada vez mais dificuldades para conseguir se manter de sua música.

O que pode nos parecer uma realidade distante é, na verdade, muito atual, pois o mundo artístico se assemelha ao da moda na sua instabilidade, no sentido de que é feito de tendências, e algo que faz extremo sucesso logo em seguida pode se tornar obsoleto sob certo ponto de vista. Para mostrar isso, a peça acompanha a trajetória de Gene Glimmer, um side man, ou seja, músico de apoio.

Se há tantas dificuldades numa profissão escolhida por diversas pessoas, é porque também há extrema beleza em fazer de uma forma genuína de expressão um trabalho. Por isso, o universo que Leight constrói quando Glimmer ainda é um trompetista de sucesso é fascinante, repleto de histórias compartilhadas entre os músicos e de momentos poéticos quando o protagonista conhece Terry, com quem acaba se casando.

A união dos dois e a chegada de um filho coincidem com a decadência dos jazzistas. Além dos problemas econômicos, o que acontece é uma profunda degradação do prestígio de que esses músicos desfrutaram no passado. Glimmer passa a ser maltratado por contratantes e vê um colega ser preso e agredido. Essa crise profissional acaba se refletindo na vida pessoal do trompetista, desestruturando completamente sua família. É por esmiuçar não as particularidades daquele momento histórico, mas as implicações que essa transformação traz à vida do protagonista e dos outros músicos, que o retrato de Leight se torna atemporal.

O fascínio e a beleza da vida de artista são amplamente reforçados pela direção de Zé Henrique de Paula, que cria imagens a partir de quadros de Edward Hopper e Norman Rockwell, pintores que viveram na época em que se passa a peça e que muitas vezes retratavam a boemia e a vida noturna, tão caras aos músicos.

Para isso, o cenógrafo Jean Pierre Tortil concebe um cenário diferente para cada um dos diversos ambientes em que a ação se passa, buscando, deste modo, que cada um se torne especialmente atrativo visualmente. A iluminação de Fran Barros trabalha essencialmente com luzes laterais, criando uma atmosfera quase brumosa que acentua o clima feérico da montagem. As interpretações, todas representando personagens notívagos, seguem a mesma linha, com tons de sedução na voz, meio-sorrisos e troca constante de olhares.

Há, enfim, um empenho do espetáculo no sentido de tornar atraente o universo retratado, o que aumenta a força do contraponto com a decadência pela qual as personagens depois passarão, evidenciando o potencial que os artistas têm e que, muitas vezes, como na peça, é tolhido pelo mercado. Esse trabalho da encenação fica claro se forem justapostas as cenas em que os músicos em seu auge conversam animadamente no bar e aquela em que, já arruinados, eles ouvem em silêncio uma gravação de Clifford Brown.

Essa contraposição entre o apogeu do jazz e sua derrocada fica explícita na transformação do casal protagonista, a partir da degradação familiar que os leva a praticamente uma inversão de papéis. Otávio Martins, representando Gene Glimmer, é confiante e seguro no início, mas, conforme vai envelhecendo e seu corpo vai se curvando, ele se torna cada vez mais ingênuo, saudoso de um reconhecimento perdido. Sandra Corveloni, no papel de Terry, segue o caminho contrário, indo da ingenuidade a uma certa maturidade de ter os pés no chão quando a situação financeira se complica. São dois intérpretes que constroem seu desempenho em sintonia com a linha-mestra do espetáculo, explicitando, tanto no campo objetivo como no subjetivo, o impacto e a frustração que a mudança brusca na conjuntura acarreta.

Para o público leigo – a quem o espetáculo cumpre seu mais importante papel, o de evidenciar as agruras da profissão dos artistas – talvez continue parecendo uma realidade distante, já que Side Man é um espetáculo alicerçado em diversos patrocínios e apoios. Talvez uma produção menor refletisse melhor, no seu aspecto produtivo, o tema da peça. Entretanto, é motivo de contentamento que um trabalho sério como este possa ser feito com verba, remunerando toda a equipe e possibilitando a sofisticada estrutura que a obra tem. Se muitas vezes a dificuldade econômica para a realização artística faz parte da realidade, felizmente, neste caso, ela fica apenas no plano da ficção.

Obs.: Esta crítica é dedicada à memória de Alberto Guzik um dos maiores homens de teatro deste país. Vai deixar muitas saudades.

FICHA TÉCNICA

Autor: Warren Leight
Direção: Zé Henrique de Paula
Assistência de direção: Thiago Ledier
Elenco: Otávio Martins, Sandra Corveloni, Alexandre Slaviero, Eric Lenate, Luciano Schwab, Daniel Costa e Gabriela Durlo (stand-in: Marco Aurélio Campos, Davi Reis e Amazyles de Almeida)
Preparação corporal: Inês Aranha
Preparação vocal: Maria Silvia Siqueira Campos
Figurinos: Rogério Figueiredo
Cenários: Jean Pierre Tortil
Visagismo: Fábio Petri
Design de som: Fernanda Maia
Iluminação: Fran Barros
Cenotécnica: Paulo Branco
Assessoria de imprensa: Darlene Dalto
Design gráfico: José Edward Flaga
Produção: Zeca Souza Campos e Davi Amarante
Fotos: Ronaldo Gutierrez

Side Man – Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153). Tel. (011) 3288-0136. Quinta e sexta, 21h30; sáb., 18h e 21h; dom., 18h. R$ 10/R$60. Até 01/08.

6 Respostas to “Side Man evidencia as agruras da profissão dos artistas”

  1. Rodolfo Alex 30 de junho de 2010 às 1:27 PM #

    Acredito que o grande publico tem sim a noção de que existem inumeras dificuldades para chegar ao estrelato e se manter na fama, vemos na tv diversas historias de artistas que vão e vem, tentando se manter no topo, o que pode ser mais interessante no texto e na montagem de Side Man é o lado humano e a repercusão na vida pessoal dos altos e baixos da vida artistica, de como, nas artes, o lado psicologico é afetado pela ascensão e decadencia de uma pessoa que decide viver de arte, que não é igual a ser um pedreiro, eletricista, ou qualquer outra profissão que não envolve tantos sentimentos.
    não precisamos saber como viviam os artistas na Nova York dos anos 20 para saber das dificuldades da vida de artista, basta , simplismente ligar a TV!

  2. WilliamGo 30 de junho de 2010 às 2:06 PM #

    A mais pura realidade. infelizmente o panorama artístico nacional obriga o artista, seja ele ator, produtor, escritor, etc, a viver multiplas realidades para suprir suas necessidades. Quando estará em cartaz no RJ?

  3. Kiko Rieser 30 de junho de 2010 às 2:12 PM #

    Não sei se os artistas se afetam mais com uma oscilação na carreira do que outros profissionais. De qualquer forma, não falo de chegar ao estrelato e conseguir a fama. O que eu falo (porque o espetáculo fala) é sobre sobrevivência mesmo, no máximo sobre prestígio, que é bem diferente de fama. Mas certamente não basta ligar a TV pra ter essa noção. Aliás, ligar a TV não dá noção de nada a ninguém.

  4. Rodolfo Alex 2 de julho de 2010 às 11:38 AM #

    tenho noção de muitas coisas assistindo TV, pela internet, revistas e jornais, o problema não esta no meio de comunicação, mas em quem busca a informação, consigo , de boa, qualquer informação que desejo, e muita noção no que se trata de mundo.

  5. Kiko Rieser 2 de julho de 2010 às 4:09 PM #

    Me diga por exemplo um telejornal realmente bom. Internet, jornais, revistas, aí tem muito mais coisa interessante. Claro que não sou contra a TV. Adoro, inclusive. Mas só passa o que interessa ao pdoer hegemônico.

  6. Beatriz Ruiz 10 de julho de 2010 às 10:06 AM #

    Vi a peça ontem e achei simplesmente maravilhosa – atuações seguras e emocionantes, cenário primoroso, figurinos lindos… Fui sem muita expectativa pois não tenho nenhum interesse especial pelo jazz nem sua história, mas a peça é tão boa que acaba envolvendo totalmente o espectador no contexto da época e no drama familiar tocante.
    Só recomendo que tome um lanche antes pois a peça é bem longa, apesar de você nem sentir o tempo passar.

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