Artigo: Algumas considerações sobre o FIT 2010

23 jul

Michel Fernandes*, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

"Las Julietas" com entrada gratuita

Começo este artigo declarando sua parcialidade. Primeiro por que acompanhei apenas os primeiros quatro dias do FIT – Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto e, mesmo assim, precisei escolher entre esse ou aquele espetáculo, vez que a programação cresceu. Sem dúvidas, o conceito do FIT 2010, A Conquista da Singularidade, permeou todo o festival. Para o bem e para o mal.

Como comentado em Abertura do FIT 2010 celebra a arte do palco, o espetáculo Antes, da Armazém Cia. de Teatro, realizou singela ode ao teatro, clareando, com citação de A Tempestade,de Shakespeare, que diz: “somos feitos da matéria dos sonhos”, clara alusão àqueles que se dedicam às artes.

Uma das estreias do FIT 2010, Marcha Para Zenturo, texto de Grace Passo, do grupo Espanca!, e direção de Luiz Fernando Marques, do Grupo XIX de Teatro, duas companhias teatrais, de Belo Horizonte e São Paulo, que se enquadram no vetor sério da pesquisa cênica, dessa vez deixou o público e a crítica frustrados. O texto tem ideias que não conseguem libertar-se do lugar-comum e o mote futurista é juvenil porque não há estofo que o sustente. Mas nem tudo está perdido se houver coragem para fazer cortes que optem por menos referências – a alusão à trama de A Gaivota, de Tchekhov, acaba por prolongar, desnecessariamente, a peça.

Discutir o processo de identificação é o objetivo de Otro, de Enrique Diaz,com a companhia Teatro do Improviso, que se utiliza da estrutura literária de Clarice Lispector, dança, vídeo, entre outros recursos, para criar um espetáculo cuja característica premente é de um work in progress. Nota-se, também, certa semelhança com a dança-teatro de Pina Bausch em sua diretriz deformar frases corporais que digam, ou sugiram, imagens que superam a linguagem verbal. O trabalho traz a marca divertida dos espetáculos de Diaz e a teatralidade expressa, inserindo o espectador no processo. Não é peça completa, é trabalho em quem se pesquisa formas diferentes de se utilizar os instrumentos teatrais.

Criado em 2002 e retomado nas comemorações dos 10 anos da Cia. Elevador Panorâmico, A Hora em Que Não Sabíamos Nada Uns dos Outros, de Peter Handke, a montagem regida por Marcelo Lazzarato foi uma bela orquestra em que imagens, músicas, ruídos eletrônicos e produzidos pelos atores, dialogou com a paisagem urbana – a Praça da Independência – e provocou nos espectadores uma espécie de alargamento quando se depararem, doravante, com tipos comuns como carteiros.

O Uruguai fez rir com Las Julietas,uma versão nonsense de Romeu e Julieta, de Shakespeare, em que quatro excelentes atores narram a tragédia, condimentando com suas críticas aos fatos e personagens do texto, e a colocam nos anos 1950 onde inserem dados do Uruguai e um texto do surrealismo.

*Michel Fernandes viajou a convite do FIT

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