Peça traz amigos em crise

8 fev

Crítica de Michel Fernandes publicada na edição de 03 de fevereiro de 2011 no jornal Diário de São Paulo (michel@aplausobrasil.com)

Peça de Alan Ayckbourn fica até 11 de fevereiro em cartaz

Há uma sensação da ausência da real amizade, e, no entanto, não me refiro somente aos dias em que os relacionamentos virtuais proliferam. Cadê os diálogos mais francos, sem medo de mergulhar em assuntos aparentemente intocáveis? A falta de afeto, de trocas mais profundas são moléstias atemporais. O mote de Amigos Ausentes (Absent Friends), do inglês Alan Ayckbourn – em cartaz até sexta-feira (11) na sala principal do Teatro Augusta – é justamente a crise das relações e a patética repetição de puídos clichês daqueles que se imaginam capazes de confortar os que consideram mais frágil, que mascara a arrogância de quem se pensa superior aos que “estão por baixo”.

Em Amigos Ausentes a trama gira em torno da organização de um chá para receber Colin (Daniel Warren em interpretação tocante) por seus velhos amigos – que acreditam estar Colin arrasado devido a morte recente de sua noiva.

Antes da chegada do convidado algumas notas daquela sinfonia calada revelam a atmosfera que pesa sobre aquele grupo de amigos: eles se esforçam por trocar assuntos que realmente gostariam de discutir por coisas triviais. Bom exemplo da necessidade em escapar do enfrentamento da realidade é o consumismo exagerado de uma das personagens.

Devido a seu atraso, quando Colin chega a relação entre aqueles supostos amigos, está suficientemente azedada pela pitada de franqueza em discussões que romperam o dique da rasa abordagem dos assuntos banais. Para surpresa de todos,

"Amigos Ausentes", dirigido por Nilton Bicudo, em cartaz no Teatro Augusta

Colin está muito bem, a perda foi sentida, o luto foi vivenciado, mas as recordações da noiva preenchem as arestas de sua vida. Como não poderão transferir seus próprios fantasmas para uma desejada consolação de um amigo deprimido, esse grupo de amigos acaba sendo ajudado por Colin, sarcasticamente um homem positivo, ingênuo, crente na felicidade inabalável dos amigos e, deparando-se com uma verdade menos doce da que imaginava, acaba por se deprimir.

O jogo proposto por Ayckbourn é um bem-sucedido compêndio de situações marcadas pelo humor ácido, ressaltado pela concisa direção de Nilton Bicudo que, sabiamente, optou por um estudo minucioso das relações apresentadas pelo texto. Nesse caso um possível diálogo com uma escritura cênica poderia tirar a objetividade que é marca e força de Amigos Ausentes.

O ator e diretor Nilton Bicudo

Um ator que dirige

Apaixonado por teatro, o ator Nilton Bicudo conta que lhe apraz descobrir novos universos de atuação nas artes cênicas. “Sou um ator que dirige eventualmente, não sou diretor. Gosto de saber de tudo no teatro. Já fiz luz, som etc. Eu sou um diretor que preciso ter prazer com o espetáculo todos os ensaios. Eu tenho sorte de dirigir peças boas. Como não sou diretor de carreira, tenho uma liberdade, mas eu gosto muito, aprendo muito! Sou um amador, um cara que só gosta do que faz”, diz.

Nilton formou-se em 1993 no Teatro-escola Célia Helena, onde trabalhou com artistas como Elias Andreato e Renato Borghi que ao lado de Fauzi Arap, de quem foi assistente, formam o tripé de que descende seu trabalho como diretor. Recorre a uma ideia desenvolvida pela atriz Fernanda Montenegro em entrevista que assistiu – de que a escola do teatro é longa – para definir-se como criança na carreira. “Só a escola que forma não é suficiente. Gosto de aprender, de saber de tudo do que vou fazer. Fiz Célia Helena que conheci muitas pessoas, aprendi muita coisa, mas não acabou ali, não é só isso”, conclui.

SERVIÇO:

Espetáculo: Amigos Ausentes

Temporada: Até sexta-feira (11).

Local: Teatro Augusta – R. Augusta, 943 – Cerqueira César – São Paulo.

Informações: (11) 3151-4141

Vendas Ingresso Rápido: (11) 4003 1212

Quando: 4ª e 5ª às 21h; e 6ª às 21h30

Ingressos: R$ 30,00 / R$ 15,00 (meia)

Recomendação: 12 anos

Duração: 75 minutos

Lotação da sala: 300 lugares

Uma resposta to “Peça traz amigos em crise”

  1. Wesley Sampaio 8 de fevereiro de 2011 às 10:56 PM #

    Nesse misto de atitudes e ações entre os personagens me faz querer ver essa peça. pois segundo o fatos relatados pelo colunista Michel Fernandes. vejo algo de intrigante ilario e ao mesmo tempo uma seriedade. paresce refletir muito na sociedade e en nosso proprio dia dia

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