Claudio Fontana vive Lady Macbeth no teatro

10 jul

Nanda Rovere, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Cláudio Fontana como Lady Macbeth - foto de João Caldas

SÃO PAULO – Uma das peculiaridades da montagem de Macbeth, terceira incursão do diretor Gabriel Villela no universo do bardo inglês, William Shakespeare, é que todos os papéis são interpretados por atores. A presença do ator Claudio Fontana merece destaque, pois ele dá vida à Lady Macbeth.

Com mais de 20 anos de carreira, o ator começou profissionalmente no teatro em Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu, com direção de Gabriel Villela, em 1990. Por este trabalho, recebeu o prêmio Apetesp de ator revelação.
Formado em Economia e Administração, Claudio trabalhava numa empresa como gerente de marketing e fazia teatro amador no Clube Pinheiros de São Paulo. Decidiu investir na carreira teatral e desde então tem realizados trabalhos com boa receptividade do público e da crítica.

Em seu currículo constam trabalhos com diretores como Gabriel Villela (Vem Buscar-me, A Guerra Santa, Mary Stuart, Replay, A Ponte e a Água de Piscina e Calígula), Márcio Aurélio (As Traças da Paixão e Pólvora e Poesia), Enrique Diaz (Uma Coisa Muito Louca), Elias Andreato (Andaime e Adivinhe Quem Vem Para Rezar, ao lado de Paulo Autran), José Possi Neto (Amigas Pero No Mucho).
Na TV, o seu último trabalho foi na minissérie Rei Davi, da Record. No cinema, viveu o jogador Zico, no filme Zico, de Eliseu Ewald, e também atuou em I Hate São Paulo, de Dardo Toledo Barros.

Nesta entrevista, o ator, também responsável pela produção do espetáculo, fala sobre o espetáculo Macbeth, a criação de sua personagem, a direção da Gabriel Villela e a sensação de estar pela primeira vez atuando num texto de Shakespeare, entre outros assuntos.

Aplauso Brasil – Como é a experiência de interpretar um personagem feminino (na questão corporal, vocal, psicológica…)?
Claudio Fontana
Graças à concepção de Gabriel Villela, não realista, quase brechtiana, os atores não interpretam personagens, mas, sim, narram sua estória. Isso contribuiu para que eu, como ator, não precisasse mergulhar no “universo feminino”, nos seus estereótipos, procurar um modo feminino de andar ou de falar, como exigiria uma peça realista, ou como já fiz em Camila Baker ou Amigas Pero No Mucho, comédias realistas. O que o público verá em Lady Macbeth é um personagem em sua essência enigmática, calculista, ambiciosa, persuasiva, maldosa e insensível, criada por Shakespeare. E isso é fascinante, tanto para o ator como para o público: as vilãs fascinam o público pela total ausência de culpa e de remorso em relação a atos praticados.

AB – Neste sentido, como não cair no estereótipo?
Claudio Fontana
Como disse acima, uso a voz e o corpo masculinos para compor esse personagem. A maldade e ambição do ser humano independem do sexo. Lady Macbeth pede aos espíritos que a destituam de seu espírito feminino – até nisso Gabriel e Shakespeare estão sintonizados (risos).

AB – Na sua opinião, quem é Lady Macbeth, visto que há o misto de força, maldade/ambição, fragilidade, loucura e culpa?
Claudio Fontana
Lady Macbeth não tem culpa no sentido cristão que conhecemos hoje. Ela é uma mulher ambiciosa, persuasiva, que, através da profunda paixão que tem pelo marido, planeja a ascensão do casal ao trono. Não mede consequências. Instiga o marido a matar sem titubear e até ajuda a concretizar o crime, voltando ao quarto onde acabara de ocorrer o assassinato para devolver os punhais que Macbeth trouxera de volta inadvertidamente, manchando também ela suas mãos de sangue. Sua loucura é proveniente de uma personalidade que entra em derrocada após conseguir o que tanto sonhara. (Freud:Alguns Tipos de Caráter Encontrados no Trabalho Psicanalítico, 1916, segunda parte:Os Arruinados pelo

Marcelo Antony encarna Macbeth e Cláudi Fontana, Lady Macbeth

Êxito ou Os que Fracassam ao Triunfar.)

AB – Em que medida o trabalho de voz e musicalidade realizado por Babaya, Francesca Della Monica e Ernani Maletta te auxiliou na criação do personagem?
Claudio Fontana
O trabalho do trio Babaya/Ernani/Francesca é uma oportunidade singular em uma montagem teatral. Poucas produções no Brasil têm esse acompanhamento precioso ao trabalho do ator como nos espetáculos dirigidos pelo Gabriel. Babaya me ajudou muitíssimo na procura por uma voz que demonstrasse as características de Lady Macbeth sem interpretá-las exageradamente. Seu trabalho de direção de texto foi a chave para descobrir um caminho para meu trabalho como intérprete. Francesca faz um trabalho primoroso de espacialização da voz, um conceito ainda pouco conhecido pelos atores brasileiros, que exige um estudo a longo prazo, mais sistemático e contínuo mas resulta na excelência da emissão vocal através do entendimento mítico dos personagens. Ernani contribui para a musicalidade da voz falada e cantada. Ajuda o ator a ter sonoridade, a surpreender sempre os ouvidos da plateia.

AB – O Gabriel (Villela) já fez vários trabalhos em que atores interpretavam mulheres e atrizes, homens. O que essa opção traz de enriquecimento para o texto, para a encenação?
Claudio Fontana
Cada caso é um caso. Em A Vida é Sonho, de Calderón de La Barca, o elenco foi feminino: Regina Duarte interpretava Segismundo, Ileana Kwasinski o Rei Basílio. E isso só engrandecia o espetáculo: a combinação da fragilidade da atriz com a do personagem emocionava a todos. O teatro permite essa liberdade como nenhum outro espaço artístico. Isso era uma prática comum no teatro shakespeariano e em pleno 2012 o público vai entender que um ator interpretar um personagem feminino não incomoda. Ao contrário, possibilita uma leitura mais enriquecida, mais estimulante.

AB – Com relação aos figurinos, como eles contribuem para a criação do personagem, já que sempre o Gabriel já tem o desenho dos figurinos no início dos ensaios?
Claudio Fontana
Trabalhar com Gabriel é uma experiência inesquecível. Ter cenário e figurinos prontos 2 meses antes da estreia!!! Isso só ajuda o ator. No caso de Lady Macbeth, a maquiagem também é um fator importante, que me ajudou a entender o que Gabriel queria desse personagem.
AB – O que você pode falar do figurino da Lady e dos demais personagens que mais te chamaram a atenção?
Claudio Fontana
Os figurinos de Gabriel Villela e do talentoso artista potiguar Shicó do Mamulengo são uma preciosidade: as armaduras feitas a partir de malas de viagem antigas, as coroas com coleiras de cachorro, os tecidos coloridos, o preto do rei e da rainha, as capas de cortinas cenográficas… Enfim, é uma maravilha… E o cenário de Márcio Vinicius é de um refinamento total: teares mineiros artesanais antigos sobrepostos em forma de um totem, de onde saem linhas de tecido que envolvem os personagens, tecendo suas teias e tramas.

AB – O produtor sempre vê o lado mais prático de uma produção…como é estar na produção e atuando?
Claudio Fontana
Complicado. Produzir no Brasil está cada vez mais difícil. O governo não subsidia diretamente a cultura, o que deveria fazer, já que somos um país pobre e a cultura e a educação precisam ser estimuladas se quisermos reverter esse quadro. O sistema de captação de patrocínio é complicado e o governo piora as coisas a cada ano, tornando a Lei Rouanet mais burocrática e ineficaz, ao invés de fazer o contrário. A política cultural do governo caminha para um perigoso impasse ao querer prejudicar produtores do eixo Rio-São Paulo e atores que eles taxam de “consagrados”, só porque tentam sobreviver fazendo também TV. Por que simplesmente não estimular regiões menos favorecidas do país ou atores amadores ou em início de carreira sem prejudicar profissionais já estabelecidos, punindo-os por razões geoeconômicas ou porque já fizeram uma novela ou duas? É complicado porque ainda é preciso esquecer tudo isso e entrar em cena com cara de que nada está acontecendo (risos).

AB – É o seu primeiro Shakespeare, certo? Como é interpretar uma obra desse dramaturgo?
Claudio Fontana
É, sim, meu primeiro Shakespeare. Conhecê-lo a fundo, e ainda numa de suas melhores obras, é uma oportunidade única. Graças a Deus, 2012 tem sido especial pra mim. Depois de Rei Davi, onde tive a oportunidade de fazer um lindo personagem da Bíblia, Jônatas, agora tenho a oportunidade de interpretar um personagem radicalmente oposto.

AB – Na sua opinião, o que faz de Macbeth uma obra tão atual?
Claudio Fontana
Macbeth é uma obra-prima. É a tragédia de um homem bom e das consequências da ambição do homem. E nos apresenta dois personagens que se complementam e que não existiriam um sem o outro. A sublimidade de Macbeth e Lady Macbeth é irresistível. São personalidades convincentes e valorosas, além de profundamente apaixonadas. Aliás, é de uma ironia incomparável, mas esse é o casal mais feliz de toda a obra dramática de Shakespeare. E olha só o que aprontaram (risos).
Gabriel surpreende sempre. Já trabalhei com ele em 10 espetáculos, mas há 10 anos não participava de um processo com ele desde o início. Em Calígula, em 2009, entrei no espetáculo substituindo outro ator no meio da temporada. O último espetáculo em que trabalhei com ele foiA Ponte e a Água de Piscina, de Alcides Nogueira, em 2002. Sua concepção de Macbeth é rica em contrastes, provocadora, estimulante. Gabriel é um dos poucos encenadores que opinam sobre a obra, sem medo, e usam a linguagem teatral de forma plena, onírica e poética.

AB – Algo que queira salientar?
Claudio Fontana
Gostaria de dizer que o público se surpreenderá com o trabalho dedicado e refinado de Marcello Antony como Macbeth. É um ator talentosíssimo e que procura, com sabedoria, estimular-se e reinventar-se no teatro, fugindo à comodidade do ator-galã da TV. Acho que Macbeth significará um momento especial em sua carreira. Marcello é alegre, brincalhão, contagia a todos com seu espírito leve e generoso. Mas, quando entra em cena, transforma-se em um ator maior, entregue com sensibilidade e técnica a seu ofício.
Gostaria também de mencionar a química mágica que existe entre Gabriel Villela e Shakespeare, o que já vimos em Romeu e Julieta, que acaba de ser remontado pelo Grupo Galpão e de ser apresentado em Londres, no Globe Theatre, como parte das comemorações que antecedem os Jogos Olímpicos, e Ricardo III, do Grupo Clowns, de Shakespeare, que deve chegar a São Paulo finalmente, por iniciativa do SESC. As metáforas de Shakespeare como “Só é longa a noite que nunca encontra o dia” (referindo-se à morte) encontram em Gabriel um encenador ideal para expressá-las. As cenas da morte de Banquo (Marco Antônio Pâmio) e do próprio Macbeth (cena final) são metáforas cênicas mágicas que – tenho certeza -seriam aplaudidas de pé pelo bardo.

Ficha técnica:

Elenco:

Macbeth – Marcello Antony

Lady Macbeth- Claudio Fontana

Duncan / Macduff- Helio Cicero

Banquo / Dama de Companhia- Marco Antônio Pâmio

Narrador – Carlos Morelli

Bruxa 1 / Nobre- José Rosa

Bruxa 2/ Malcolm / Ross – Marco Furlan

Bruxa 3/ Donalbain / Angus / Velho / Mensageiro/ Porteiro- Rogério Brito

Texto – William Shakespeare. Tradução – Marcos Daud. Colaboração – Fernando Nuno. Direção e adaptação – Gabriel Villela. Assistência de Direção – César Augusto, Ivan Andrade e Rodrigo Audi. Figurinos – Gabriel Villela e Shicó do Mamulengo. Cenografia – Marcio Vinicius. Iluminação– Wagner Freire. Antropologia da voz- Francesca Della Monica. Direção de texto –Babaya. Musicalidade da cena – Ernani Maletta. Trilha Sonora – Gabriel Villela. Direção de Movimento – Ricardo Rizzo. Adereços-Shicó do Mamulengo e Veluma Pereira. Apliques e patchwork – Giovanna Vilela. Costureira- Cleide MezzacapaHissa. Maquiagem para ensaio fotográfico – Eliseu Cabral. Assistência de Maquiagem para ensaio fotográfico-Patricia Barbosa. Coordenação do Ateliê- José Rosa e VelumaPereira .Assistência de Cenografia – Julia Munhoz. Cenotécnicos- Jean Carlos e Evandro Nascimento. Diretor de Palco- Alex Peixoto. Operador de luz- Marcelo Violla. Camareira – Marlene Collé. Assessoria de Imprensa-Arteplural – Fernanda Teixeira. Fotografia- João Caldas. Assistência de fotografia – Andréia Machado. Fotografias de ensaio / makingof – Dib Carneiro Neto e João Caldas. Programação Visual- Dib Carneiro Neto, Jussara Guedes e Suely Andreazzi. Assistente de Produção Julia Portella e Lucimara Santiago. Produção Executiva –Clissia Morais e Francisco Marques. Direção de Produção – Claudio Fontana

Serviço

Macbeth

Teatro VIVO – Avenida Doutor Chucri Zaidan, 860, Itaim / Vila Olímpia. Temporada – de sexta a domingo de até 22 de julho. Sex 21h30; Sáb 21h; Dom 19h. R$ 50 (sex e dom), R$ 70 (sab). 12 anos. Duração de 90 minutos. Serviço de valet – R$ 18,00. Capacidade: 290 lugares. Estacionamento com manobrista: R$15,00 (só dinheiro) Bilheteria: aberta de terça a quintadas 14h às 20h e  de sexta a domingo, das 14h até o início do espetáculo. Tel: 11 7420-1520. Aceita todos os cartões.

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